Moram na pele dos ministros."
PESSOA, Fernando, Poesia Mágica, Profética e Espiritual, Edições Manuel Lencastre, Lisboa, 1989.
A visão bandárrica e profética, N.º 6, p.21
A crise está instalada. Gastámos demais, afirma a mainstream. E agora todos temos que pagar os abusos que fizemos. Pessoalmente, custa-me engolir e por isso faço questão de recordar como tudo se passou.
Nos últimos trinta anos, o poder tem alternado basicamente entre três partidos: o PCP, o BE e Os Verdes. Todos eles disputaram entre si quais as melhores condições a dar aos trabalhadores, e fazer com que o grosso dos custos do estado e da sociedade fossem pagos pelos capitalistas, que era afinal o que se passava no resto da Europa e EUA. No seu esforço de sobrecarregar os capitalistas (recordemos são eles quem colocam o dinheiro, são eles que com o seu esforço e dedicação fazem a sociedade ir progredindo) e distribuir os lucros pelos trabalhadores, em determinadas situações as coisas correram menos bem para quem está no governo e então foi o outro partido para o poder. O facto, é que nos últimos anos, a automatização tem feito com que cada trabalhador gaste menos tempo a trabalhar e tudo à custa dos lucros dos capitalistas. Os trabalhadores, aproveitando tanta facilidade e tanto tempo livre, passaram a gastar muito dinheiro em grandes casas, em autênticas mansões, em viagens, em grandes obras públicas, em grandes universidades e escolas... sendo que tudo era pago à custa dos capitalistas. Para convencer os capitalistas de que tudo estava bem, os governantes e os opinion makers apregoavam que os capitalistas podiam pedir emprestado para conseguir pagar os impostos que abusivamente lhes estavam a ser cobrados, porque a economia no futuro estaria melhor e por isso conseguiram pagar as dívidas, tal como o evidenciavam todos os estudos universitários. De tal forma, que os lucros e dividendos só eram pagos graças ao crédito que os capitalistas obtinham na banca. A banca obtinha o dinheiro que emprestava aos capitalistas graças às poupanças que os trabalhadores iam fazendo. Era de facto imoral: os trabalhadores obtinham cada vez mais poupanças livres de impostos, colocavam nos bancos e ainda por cima obtinham juros. E era precisamente por não ter que pagar impostos que obtinham poupanças que por sua vez iam ser emprestadas aos capitalistas para que estes conseguissem de alguma forma pagar impostos e continuar a manter as empresas a produzir.
Como era de esperar, o esquema Ponzi rebentou. Obviamente, o poder instalado foi defender as poupanças dos trabalhadores: se assim não fosse, era quase certo que o mundo como o conhecíamos acabaria, pois estalariam tumultos e revoltas porque os trabalhadores não iriam aceitar perder as suas poupanças. E por isso, começou a dizer-se que todos tínhamos gasto demasiado, que todos tínhamos vivido acima das nossas possibilidades... só que, como é óbvio, quem tinha que pagar a crise eram os de sempre: os sacrificados capitalistas. O governo lá ia dizendo que lamentava, que era uma emergência, e ia assim cortando gradualmente o que ainda permitia aos capitalistas manter uma vida decente, e aproveitava para inclinar a lei ainda mais a favor dos trabalhadores. Dizia-se mesmo que os capitalistas podiam emigrar, que eram vivamente aconselhados a isso, pois isso enriqueceria o seu currículo e quando a crise acabasse eles estariam em melhor posição para voltar a obter alguns parcos lucros. Mas era dramático: começavam-se a ver sinais de extrema pobreza entre os capitalistas, inclusivamente, os suicídios estavam a aumentar.
Pessoalmente, sendo capitalista, esta situação revolta-me. E recordo-me que há uns físicos que afirmam que que há algures no Universo um local onde o mundo é ao contrário... Vejamos como as coisas se passarão nesse outro Portugal: Os capitalistas abusaram da exploração de quem trabalha e levaram o mundo há perdição. E obviamente, quem paga as favas são os trabalhadores e reformados...